Na porta sobre o jornal
há outras cartas também
você voltou pra casa e não se sente bem.
A pia, dias já faz,
que pinga e isso só traz
mais uma sensação de quem fez tudo errado.
Tudo bem.
Tenho tempo e o dia já vem.
Eu me enterro no leito e ele traz
outra chance aos imperfeitos.
terça-feira, 29 de abril de 2008
The italian man from malta
Malditas as histórias sem fim, os personagens que correm, lutam, apanham, sobem, descem - um bom verbo em inglês, strugle - e retornam aonde começaram. "Pergunte ao Pó" e "Sonhos de Bunker Hill" são duas obras de John Fante com o mesmo anti-herói, um jovem fodido de grana, aspirante a escritor, com médio talento e total falta de noção. É uma auto-imagem do autor, que vaga entre o acolhimento sem perspectivas do interior e a próspera indiferença das cidades, entre a religião, que acalma enquanto oprime, e a liberdade, de satisfações e descaminhos.
O personagem, pobre infeliz que revive as experiências de Fante, é Arturo Bandini. Enquanto leio, apronta as maiores imbecilidades. Ele não tem nada a ver comigo, mas me envolvo cada vez mais, destilando de cada situação um significado escondido, o medo e a incerteza que, no final das contas, norteiam a vida de qualquer um.
Não existe moral da história. Já acabou o tempo dessa literatura. A história agora é amoral, imoral, sem final. Cabe a nós pontuá-la com um pensamento ou o esquecimento.
Malditas as histórias sem fim, os finais sem resposta, os personagens que nada aprendem para que aprendamos nós.
O personagem, pobre infeliz que revive as experiências de Fante, é Arturo Bandini. Enquanto leio, apronta as maiores imbecilidades. Ele não tem nada a ver comigo, mas me envolvo cada vez mais, destilando de cada situação um significado escondido, o medo e a incerteza que, no final das contas, norteiam a vida de qualquer um.
Não existe moral da história. Já acabou o tempo dessa literatura. A história agora é amoral, imoral, sem final. Cabe a nós pontuá-la com um pensamento ou o esquecimento.
Malditas as histórias sem fim, os finais sem resposta, os personagens que nada aprendem para que aprendamos nós.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Estômago
O filme é dirigido por um egresso em Comunicação da Universidade Federal do Paraná e tem locações em ruas B de Curitiba. Como o Beá ainda não tem previsão de sair da faculdade, não estamos falando de "José Cadilhe II".
Estômago, do curitibano Marcos Jorge, já está premiadíssimo - Rio, Uruguai, Holanda - e deve receber mais uma porção de prêmios e menções pelos próximos meses. Como prato principal do filme podemos citar o ator protagonista, a trilha e o roteiro, por sinal, original. Como pontos fracos, alguns dos atores. Zumiro e Giovane, por exemplo, com uma atuação sem sal, não me agradaram. Salvo se, em uma metalinguagem de vanguarda, o diretor fez crítica velada às chefias do mundo inteiro, concentrando todo o talento do casting na figura do aprendiz, do empregado.
Estômago, do curitibano Marcos Jorge, já está premiadíssimo - Rio, Uruguai, Holanda - e deve receber mais uma porção de prêmios e menções pelos próximos meses. Como prato principal do filme podemos citar o ator protagonista, a trilha e o roteiro, por sinal, original. Como pontos fracos, alguns dos atores. Zumiro e Giovane, por exemplo, com uma atuação sem sal, não me agradaram. Salvo se, em uma metalinguagem de vanguarda, o diretor fez crítica velada às chefias do mundo inteiro, concentrando todo o talento do casting na figura do aprendiz, do empregado.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Sicko - SOS Saúde
O último filme de Michael Moore não levou o Oscar. Não assistí aos outros documentários concorrentes, mas notei um senso geral entre alguns críticos que descategorizaram Moore como "não exatamente a pessoa mais comprometida com a verdade". Bom pra ele.
Não vivemos exatamente em uma sociedade lá muito compatível com a verdade. A verdade que pensamos, consumimos e reproduzimos é um misto de mensagens que são empacotadas e vendidas como tal. Podem sê-la - verdade - ou não.
Michael Moore domina técnicas de cinema. Eu não. Mas assisto a bastantes filmes e posso dizer quando estou envolvido pela trama, quando ela enfraquece, quando há um salto de roteiro. Há algum tempo também percebo quando uma idéia esgueira-se das imagens, textos, trilhas e sons para dentro da minha mente, com a intenção de vender-me uma opinião formatada. Michael Moore o faz como ninguém. E se esse é o principal ponto da crítica contra ele, eu me pergunto "e daí?".
Vender idéias e opiniões, mesmo no cinema, é fazer publicidade. Essa técnica eu domino. Também a domina toda e qualquer corporação citada ou não por Michael Moore em seus filmes esquerdistas. Após anos de utilização desta técnica, as grandes empresas se tornaram a principal entidade regente do planeta Terra. Bush? Não. Nada se faz sem o aval da GM, Monsanto, Google, Blue Cross.
Michael Moore é opositor a estas entidades, modelo de grande empresa (gigantes não sócio-responsáveis devoradoras de lucro), e utiliza no combate as mesmas armas do adversário. A coerção pela emoção, o sentimento de injustiça, identificação de classes, e até mesmo a criação e registro de situações são recursos audiovisuais, tenha este duas horas ou 30 segundos. Não era por acaso que havia um helicóptero acompanhando os doentes americanos para receber tratamento na ilha de Cuba, mas qual a diferença entre esta cena e os bem sucedidos Reality Shows do People & Arts? Friso Reality.
O diretor defende sua visão reunindo uma quantidade de evidências, depoimentos e situações. Empacota tudo isto de um modo que lhe pareça belo e convincente e... vende. É a lei do mercado. É como as coisas são feitas hoje. É publicidade. Proibir a Moore de usar as técnicas das grandes corporações é promover um combate injusto. E o Golias de nosso tempo é milhares de anos maior e mais forte.
Não vivemos exatamente em uma sociedade lá muito compatível com a verdade. A verdade que pensamos, consumimos e reproduzimos é um misto de mensagens que são empacotadas e vendidas como tal. Podem sê-la - verdade - ou não.
Michael Moore domina técnicas de cinema. Eu não. Mas assisto a bastantes filmes e posso dizer quando estou envolvido pela trama, quando ela enfraquece, quando há um salto de roteiro. Há algum tempo também percebo quando uma idéia esgueira-se das imagens, textos, trilhas e sons para dentro da minha mente, com a intenção de vender-me uma opinião formatada. Michael Moore o faz como ninguém. E se esse é o principal ponto da crítica contra ele, eu me pergunto "e daí?".
Vender idéias e opiniões, mesmo no cinema, é fazer publicidade. Essa técnica eu domino. Também a domina toda e qualquer corporação citada ou não por Michael Moore em seus filmes esquerdistas. Após anos de utilização desta técnica, as grandes empresas se tornaram a principal entidade regente do planeta Terra. Bush? Não. Nada se faz sem o aval da GM, Monsanto, Google, Blue Cross.
Michael Moore é opositor a estas entidades, modelo de grande empresa (gigantes não sócio-responsáveis devoradoras de lucro), e utiliza no combate as mesmas armas do adversário. A coerção pela emoção, o sentimento de injustiça, identificação de classes, e até mesmo a criação e registro de situações são recursos audiovisuais, tenha este duas horas ou 30 segundos. Não era por acaso que havia um helicóptero acompanhando os doentes americanos para receber tratamento na ilha de Cuba, mas qual a diferença entre esta cena e os bem sucedidos Reality Shows do People & Arts? Friso Reality.
O diretor defende sua visão reunindo uma quantidade de evidências, depoimentos e situações. Empacota tudo isto de um modo que lhe pareça belo e convincente e... vende. É a lei do mercado. É como as coisas são feitas hoje. É publicidade. Proibir a Moore de usar as técnicas das grandes corporações é promover um combate injusto. E o Golias de nosso tempo é milhares de anos maior e mais forte.
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