quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Conhecimento de causa
No sábado, dia 3, almoçaram na casa de dona Isabel, mãe de Berenice, onde passaram a tarde. Leminski comeu pouco, dando uma ou duas garfadas frouxas. Depois do almoço, deitou-se no sofá da sala, repousando a cabeça no colo da mulher, enquanto entabulava uma conversa com a sogra sobre um assunto pertinente e no qual se considerava um especialista: as drogas. Na condição de vereadora em Tibagi, dona Isabel estava se preparando para participar de um seminário, onde deveria abordar o tema e propor soluções para o problema. Leminski se mostraria interessando, querendo saber o enfoque que ela pretendia apresentar. Diante da explicação de que seriam priorizadas as drogas mais comuns, como a maconha e a cocaína, ele se permitiu sugerir uma mudança de 180 graus no diagnóstico ao direcionar o foco exclusivamente para o álcool. "Uma droga anônima e permitida por lei, a pior de todas", garantia.
Trecho de "O Bandido que sabia Latim", biografia de Paulo Leminski, de Toninho Vaz.
Trecho de "O Bandido que sabia Latim", biografia de Paulo Leminski, de Toninho Vaz.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Minha opinião sobre as cotas
Acho que cotas são como o bolsa família.
Digamos que exista um plano de médio prazo, 10 anos que seja, que irá promover renda e riqueza entre a população mais pobre do nordeste. Isso é ótimo, excelente. Só que, como as pessoas irão se alimentar e viver por tantos anos até que o plano se desenvolva e dê frutos? Aí entra o bolsa família, que deverá prover minimamente essas pessoas até que tenham condições de se sustentar.
No caso das cotas, a meritocracia deveria ser percentualmente colocada de lado para dar lugar às políticas de inclusão social, sim. Cotas para negros, cotas para baixa renda, cotas para índios. Paralelamente, faz-se uma reforma do ensino público e oportuniza-se o acesso ao ensino fundamental e médio de qualidade para toda criança e adolescente no Brasil. As cotas seriam uma ação temporária, até que o requisito básico da meritocracia, a igualdade de oportunidades, fosse atingida.
Enfim, são paleativos. Pelo menos é assim que deveriam funcionar, não do modo clientelista como se verifica em Lula, que criou um enorme curral eleitoral entre a população mais carente.
Já fui um utópico radical, e era contra as cotas. Hoje sou mais prático e a favor. Porque pra ser um utópico, ainda preciso aprender muitas coisas.
Digamos que exista um plano de médio prazo, 10 anos que seja, que irá promover renda e riqueza entre a população mais pobre do nordeste. Isso é ótimo, excelente. Só que, como as pessoas irão se alimentar e viver por tantos anos até que o plano se desenvolva e dê frutos? Aí entra o bolsa família, que deverá prover minimamente essas pessoas até que tenham condições de se sustentar.
No caso das cotas, a meritocracia deveria ser percentualmente colocada de lado para dar lugar às políticas de inclusão social, sim. Cotas para negros, cotas para baixa renda, cotas para índios. Paralelamente, faz-se uma reforma do ensino público e oportuniza-se o acesso ao ensino fundamental e médio de qualidade para toda criança e adolescente no Brasil. As cotas seriam uma ação temporária, até que o requisito básico da meritocracia, a igualdade de oportunidades, fosse atingida.
Enfim, são paleativos. Pelo menos é assim que deveriam funcionar, não do modo clientelista como se verifica em Lula, que criou um enorme curral eleitoral entre a população mais carente.
Já fui um utópico radical, e era contra as cotas. Hoje sou mais prático e a favor. Porque pra ser um utópico, ainda preciso aprender muitas coisas.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
O caso Isabella
Irresponsabilidade, brutalidade, selvageria. Não é exatamente do quase solucionado assassinato de Isabella que falo, mas da cobertura do caso realizada pela imprensa.
Há semanas o tema faz parte da agenda dos meios de comunicação do país, os quais, volta e meia, fazem exagerado estardalhaço com assuntos de comoção nacional (lembre-se do caso João Hélio). Além das seguidas manchetes nos telejornais, a Rede Globo dedicou blocos inteiros do programa "Fantástico" a uma entrevista com os acusados. A Rede Record transmitiu por horas ininterruptas a reconstituição do crime, feita pela polícia no local do mesmo e com direito a uma boneca Isabella de sete mil reais.
Menos do que informar o público, tais coberturas sensacionalistas só fazem alimentar o sadismo da população e garantir audiência para as emissoras. Ainda, levam grupos de desocupados com gritos de "assassinos" às portas das delegacias, dificultando o trabalho da polícia.
A postura da imprensa diante de tais fatos precisa mudar, não se curvando à "sede de justiça" da população nem à tentação por uns trocados de publicidade. Ela deve se ater a sua responsabilidade e informar com austeridade. A resolução do caso é assunto de polícia e não interessa a mais ninguém.
Há semanas o tema faz parte da agenda dos meios de comunicação do país, os quais, volta e meia, fazem exagerado estardalhaço com assuntos de comoção nacional (lembre-se do caso João Hélio). Além das seguidas manchetes nos telejornais, a Rede Globo dedicou blocos inteiros do programa "Fantástico" a uma entrevista com os acusados. A Rede Record transmitiu por horas ininterruptas a reconstituição do crime, feita pela polícia no local do mesmo e com direito a uma boneca Isabella de sete mil reais.
Menos do que informar o público, tais coberturas sensacionalistas só fazem alimentar o sadismo da população e garantir audiência para as emissoras. Ainda, levam grupos de desocupados com gritos de "assassinos" às portas das delegacias, dificultando o trabalho da polícia.
A postura da imprensa diante de tais fatos precisa mudar, não se curvando à "sede de justiça" da população nem à tentação por uns trocados de publicidade. Ela deve se ater a sua responsabilidade e informar com austeridade. A resolução do caso é assunto de polícia e não interessa a mais ninguém.
terça-feira, 29 de abril de 2008
Canção para Arturo Bandini
Na porta sobre o jornal
há outras cartas também
você voltou pra casa e não se sente bem.
A pia, dias já faz,
que pinga e isso só traz
mais uma sensação de quem fez tudo errado.
Tudo bem.
Tenho tempo e o dia já vem.
Eu me enterro no leito e ele traz
outra chance aos imperfeitos.
há outras cartas também
você voltou pra casa e não se sente bem.
A pia, dias já faz,
que pinga e isso só traz
mais uma sensação de quem fez tudo errado.
Tudo bem.
Tenho tempo e o dia já vem.
Eu me enterro no leito e ele traz
outra chance aos imperfeitos.
The italian man from malta
Malditas as histórias sem fim, os personagens que correm, lutam, apanham, sobem, descem - um bom verbo em inglês, strugle - e retornam aonde começaram. "Pergunte ao Pó" e "Sonhos de Bunker Hill" são duas obras de John Fante com o mesmo anti-herói, um jovem fodido de grana, aspirante a escritor, com médio talento e total falta de noção. É uma auto-imagem do autor, que vaga entre o acolhimento sem perspectivas do interior e a próspera indiferença das cidades, entre a religião, que acalma enquanto oprime, e a liberdade, de satisfações e descaminhos.
O personagem, pobre infeliz que revive as experiências de Fante, é Arturo Bandini. Enquanto leio, apronta as maiores imbecilidades. Ele não tem nada a ver comigo, mas me envolvo cada vez mais, destilando de cada situação um significado escondido, o medo e a incerteza que, no final das contas, norteiam a vida de qualquer um.
Não existe moral da história. Já acabou o tempo dessa literatura. A história agora é amoral, imoral, sem final. Cabe a nós pontuá-la com um pensamento ou o esquecimento.
Malditas as histórias sem fim, os finais sem resposta, os personagens que nada aprendem para que aprendamos nós.
O personagem, pobre infeliz que revive as experiências de Fante, é Arturo Bandini. Enquanto leio, apronta as maiores imbecilidades. Ele não tem nada a ver comigo, mas me envolvo cada vez mais, destilando de cada situação um significado escondido, o medo e a incerteza que, no final das contas, norteiam a vida de qualquer um.
Não existe moral da história. Já acabou o tempo dessa literatura. A história agora é amoral, imoral, sem final. Cabe a nós pontuá-la com um pensamento ou o esquecimento.
Malditas as histórias sem fim, os finais sem resposta, os personagens que nada aprendem para que aprendamos nós.
quarta-feira, 23 de abril de 2008
Estômago
O filme é dirigido por um egresso em Comunicação da Universidade Federal do Paraná e tem locações em ruas B de Curitiba. Como o Beá ainda não tem previsão de sair da faculdade, não estamos falando de "José Cadilhe II".
Estômago, do curitibano Marcos Jorge, já está premiadíssimo - Rio, Uruguai, Holanda - e deve receber mais uma porção de prêmios e menções pelos próximos meses. Como prato principal do filme podemos citar o ator protagonista, a trilha e o roteiro, por sinal, original. Como pontos fracos, alguns dos atores. Zumiro e Giovane, por exemplo, com uma atuação sem sal, não me agradaram. Salvo se, em uma metalinguagem de vanguarda, o diretor fez crítica velada às chefias do mundo inteiro, concentrando todo o talento do casting na figura do aprendiz, do empregado.
Estômago, do curitibano Marcos Jorge, já está premiadíssimo - Rio, Uruguai, Holanda - e deve receber mais uma porção de prêmios e menções pelos próximos meses. Como prato principal do filme podemos citar o ator protagonista, a trilha e o roteiro, por sinal, original. Como pontos fracos, alguns dos atores. Zumiro e Giovane, por exemplo, com uma atuação sem sal, não me agradaram. Salvo se, em uma metalinguagem de vanguarda, o diretor fez crítica velada às chefias do mundo inteiro, concentrando todo o talento do casting na figura do aprendiz, do empregado.
quarta-feira, 2 de abril de 2008
Sicko - SOS Saúde
O último filme de Michael Moore não levou o Oscar. Não assistí aos outros documentários concorrentes, mas notei um senso geral entre alguns críticos que descategorizaram Moore como "não exatamente a pessoa mais comprometida com a verdade". Bom pra ele.
Não vivemos exatamente em uma sociedade lá muito compatível com a verdade. A verdade que pensamos, consumimos e reproduzimos é um misto de mensagens que são empacotadas e vendidas como tal. Podem sê-la - verdade - ou não.
Michael Moore domina técnicas de cinema. Eu não. Mas assisto a bastantes filmes e posso dizer quando estou envolvido pela trama, quando ela enfraquece, quando há um salto de roteiro. Há algum tempo também percebo quando uma idéia esgueira-se das imagens, textos, trilhas e sons para dentro da minha mente, com a intenção de vender-me uma opinião formatada. Michael Moore o faz como ninguém. E se esse é o principal ponto da crítica contra ele, eu me pergunto "e daí?".
Vender idéias e opiniões, mesmo no cinema, é fazer publicidade. Essa técnica eu domino. Também a domina toda e qualquer corporação citada ou não por Michael Moore em seus filmes esquerdistas. Após anos de utilização desta técnica, as grandes empresas se tornaram a principal entidade regente do planeta Terra. Bush? Não. Nada se faz sem o aval da GM, Monsanto, Google, Blue Cross.
Michael Moore é opositor a estas entidades, modelo de grande empresa (gigantes não sócio-responsáveis devoradoras de lucro), e utiliza no combate as mesmas armas do adversário. A coerção pela emoção, o sentimento de injustiça, identificação de classes, e até mesmo a criação e registro de situações são recursos audiovisuais, tenha este duas horas ou 30 segundos. Não era por acaso que havia um helicóptero acompanhando os doentes americanos para receber tratamento na ilha de Cuba, mas qual a diferença entre esta cena e os bem sucedidos Reality Shows do People & Arts? Friso Reality.
O diretor defende sua visão reunindo uma quantidade de evidências, depoimentos e situações. Empacota tudo isto de um modo que lhe pareça belo e convincente e... vende. É a lei do mercado. É como as coisas são feitas hoje. É publicidade. Proibir a Moore de usar as técnicas das grandes corporações é promover um combate injusto. E o Golias de nosso tempo é milhares de anos maior e mais forte.
Não vivemos exatamente em uma sociedade lá muito compatível com a verdade. A verdade que pensamos, consumimos e reproduzimos é um misto de mensagens que são empacotadas e vendidas como tal. Podem sê-la - verdade - ou não.
Michael Moore domina técnicas de cinema. Eu não. Mas assisto a bastantes filmes e posso dizer quando estou envolvido pela trama, quando ela enfraquece, quando há um salto de roteiro. Há algum tempo também percebo quando uma idéia esgueira-se das imagens, textos, trilhas e sons para dentro da minha mente, com a intenção de vender-me uma opinião formatada. Michael Moore o faz como ninguém. E se esse é o principal ponto da crítica contra ele, eu me pergunto "e daí?".
Vender idéias e opiniões, mesmo no cinema, é fazer publicidade. Essa técnica eu domino. Também a domina toda e qualquer corporação citada ou não por Michael Moore em seus filmes esquerdistas. Após anos de utilização desta técnica, as grandes empresas se tornaram a principal entidade regente do planeta Terra. Bush? Não. Nada se faz sem o aval da GM, Monsanto, Google, Blue Cross.
Michael Moore é opositor a estas entidades, modelo de grande empresa (gigantes não sócio-responsáveis devoradoras de lucro), e utiliza no combate as mesmas armas do adversário. A coerção pela emoção, o sentimento de injustiça, identificação de classes, e até mesmo a criação e registro de situações são recursos audiovisuais, tenha este duas horas ou 30 segundos. Não era por acaso que havia um helicóptero acompanhando os doentes americanos para receber tratamento na ilha de Cuba, mas qual a diferença entre esta cena e os bem sucedidos Reality Shows do People & Arts? Friso Reality.
O diretor defende sua visão reunindo uma quantidade de evidências, depoimentos e situações. Empacota tudo isto de um modo que lhe pareça belo e convincente e... vende. É a lei do mercado. É como as coisas são feitas hoje. É publicidade. Proibir a Moore de usar as técnicas das grandes corporações é promover um combate injusto. E o Golias de nosso tempo é milhares de anos maior e mais forte.
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